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Segundo lar

Martha Medeiros

As crianças dos nossos dias estão mais socializadas, mas a escola ainda representa a primeira grande viagem ao exterior.

A casa em que fomos criadas na infância mantém-se como um castelo na nossa memória. Funcionava como um bunker que nos protegia dos perigos do mundo lá fora, tais como vendavais, cachorros sem donos, adultos malvados. Brincando em casa ou no quintal, estávamos a salvo. As saídas eram sempre acompanhadas, e resumiam-se a idas até a casa dos avós, dos primos, parques no sábado e restaurantes aos domingos. Até que chegou a hora de ir por colégio, já éramos grandes, iríamos fazer, uau, sete anos de idade.

Ainda que as crianças estejam hoje muito mais socializadas, o colégio ainda representa a primeira viagem pro “exterior”, a primeira espiada na vida como ela é de verdade, sem a monitoração dos pais. Por tudo o que se aprende a partir do primeiro dia de aula (e que vai muito além do bê-á-bá), os anos escolares são, para todos nós, inesquecíveis.

Eu nunca estudei em outro colégio que não fosse o Bom Conselho, ainda que de vez em quando surjam uns alucinados jurando que foram meus colegas no Anchieta. Entrei na primeira série e saí direto pra faculdade. Foram 11 anos ininterruptos dentro do mesmo prédio, brincando no mesmo pátio, sob a mesma disciplina rígida das freiras – e que bom que elas eram rígidas, pois isso estimulava nossa criatividade para romper certas convenções sem chamar muito a atenção, uma lição igualmente preciosa para se levar vida adiante.

Das pessoas que eu guardo, estão a dona Jorgelina, que cuidava das crianças que eram transportadas pelo ônibus escolar, e o seu Feijó, o pipoqueiro mais gente boa da cidade. Lembro do Joe’s também, a famosa lanchonete da Ramiro Barcelos que não fazia parte da área construída do colégio, mas era como se fizesse, já que todas as garotas desfilavam por aquela extensa calçada de ladrilhos vermelhos que, aliás, segue até hoje testemunhando as pegadas dos alunos – pegadas no sentido de pegação, mesmo.

Mas isso não é o mais importa. A melhor coisa que um colégio faz por nós é nos dar amigos eternos. Passados 25 anos desde meu último dia de aula, sigo ainda hoje meu contato com minha turma como se fôssemos siamesas, não no sentido de grude, que cada uma tem sua vida pra levar, mas no sentido de conexão jamais desfeita. Continuamos nos gostando (e nos implicando) como naqueles dias, mantemos as risadas e as confidências, os mesmos humores e as mesmas manias, nos reconheceríamos no escuro, no silêncio, tanto sabemos umas das outras. E olhando as fotos daquela época não temos a menor dúvida de que estamos mais jovens hoje – amadurecemos bem (ao menos bem-humoradas, como percebe-se).

Toda esta nostalgia é apenas para abraçar o Bom Conselho, que a partir de amanhã inicia as comemorações pelo seu centenário. Por um tempo fiz parte de sua história, e ele da minha: foi quem me recebeu fora de casa, quem me hospedou por inúmeras manhãs e tardes e incentivou as descobertas, os laços afetivos, a formação mesmo: nenhuma universidade ou cursinho consegue repetir isso. Colégio não é só professor, prova, matéria, aprovação, reprovação: é educação pra vida, no que a vida tem de bacana e de maquiavélica, e se posso tirar alguma conclusão desses anos passados, é que a parte bacana ganhou do maquiavelismo de lavada.


Domingo, 20 de junho de 2004.



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